terça-feira, 29 de março de 2011

Aspectos Neuropsicológicos do Espectro Autista

O Autismo é um distúrbio do desenvolvimento cujas características principais são: dificuldade na interação social, dificuldade na comunicação com outras pessoas, poucos interesses e comportamentos repetitivos e estereotipados.

 Se você quiser saber mais sobre os aspectos 
neuropsicológicos associados à Síndrome de 
Asperger a ao Autismo de Alto Funcionamento, 
participe da palestra aberta que ministrarei no 
Instituto de Psicologia da USP.  Gratuito Saiba mais

As pessoas com autismo têm um modo diferente de aprender, pensar e de se organizar. Em termos neuropsicológicos, são comuns prejuízos nas funções executivas tais como controle inibitório do comportamento (capacidade de inibir comportamentos automáticos ou impulsivos) e flexibilidade mental (capacidade de modificar o comportamento conforme a demanda de novas situações); prejuízos estes que podem estar relacionados aos comportamentos repetitivos e estereotipados do Autismo.  

  Dentre estes indivíduos autistas encontramos os Savantes, termo utilizado para designar indivíduos com capacidades incríveis para memória, cálculos, desenho, etc. Quem teve a oportunidade de assistir o filme “Rain Man”, observou as habilidades fantásticas do personagem Raymond Babbitt (capaz de decorar listas telefônicas), interpretado por Dustin Hoffman. O personagem foi inspirado em um autista savante real, o norte americano Kim Peek (1951-2009), que ficou famoso por sua capacidade memória e leitura veloz, conseguindo decorar livros inteiros após uma leitura.


Apesar de muitas pessoas com autismo apresentarem algum grau de retardo mental ou dificuldade de linguagem, nem todos os casos são assim. Há indivíduos autistas sem atraso ou dificuldade de linguagem ou prejuízos intelectuais. Alguns podem apresentar inteligência acima da média.

O termo “Espectro Autista” reúne o Autismo (com vários níveis de comprometimento), a Síndrome de Asperger e outras condições que também são caracterizadas por prejuízos na interação social e na comunicação. Neste conjunto, os indivíduos com Síndrome de Asperger e aqueles com Autismo de Alto Funcionamento apresentam inteligência média ou acima desta faixa. Entretanto, há uma diferença entre estas duas condições: ao contrário do Autismo de Alto Funcionamento, os indivíduos com Síndrome de Asperger não têm atraso na linguagem. Por outro lado, no final da infância apresentam características semelhantes e por isso existe um debate sobre a distinção entre a Síndrome de Asperger e o Autismo de Alto Funcionamento. Há autores que tratam ambas as condições como um grupo único.


 Não há um tratamento único para o Autismo e as intervenções multidisciplinares têm como objetivo melhorar os sintomas e as funções afetadas. Muitas crianças, especialmemte nos casos de Síndrome de Asperger e Autismo de Alto Funcionamento podem apresentar progressos importantes com o tratamento, de modo que alguns ao se tornarem adultos podem desenvolver uma carreira profissional e obter sucesso. No caso da Síndrome de Asperger, alguns pesquisadores sustentam a hipótese de estes indivíduos terem uma maneira diferente de agir, entender e lidar com o mundo e não incapacidade que precisa ser tratada ou curada. Alguns altistas chegam a fase adulta com capacidade de ter sucesso na carreira profissional escolhida. Porém, geralmente as dificuldades sociais e de comunicação persistem, ocasionando problemas em diversas áreas da vida. Mediante suporte adequado, o autista poderá ter uma vida independente.




O site da Associação de Amigos do Autista (AMA) apresenta o personagem André dentre estórias da Turma da Mônica, explicando o que é Autismo e como devemos lidar com esta condição.



Vejam o Gibi da Turma da Mônica com o André!



Elaine Cristina Zachi
elaine-zachi@uol.com.br

Neurônios no Divã: Psicologia e Neurociências
Blog feito por psicólogas que acreditam em neurônios
http://www.neuroniosnodiva.blogspot.com



Referências:

Hill E.L. (2004). Executive dysfunction in autism. TRENDS in Cognitive Sciences, 8 (1), 26-32.

Kasari C. & Rotheram-Fuller E. (2005). Current trends in psychological research on children with high-functioning autism and Asperger disorder. Current Opinion in Psychiatry, 18, 497-501.

Woodbury-Smith M.R. & Volkmar F.R. (2009). Asperger Syndome. Eur Child Adolesc Psychiatry, 18, 2–11.

domingo, 20 de março de 2011

Depressão

A Depressão é uma doença que afeta o estado de humor das pessoas, deixando-as com o humor deprimido, com perda de interesse ou prazer, com sentimentos de culpa, pouca energia e baixa concentração. Todas as pessoas, homens e mulheres, de qualquer faixa etária, podem ser acometidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos casos mais graves, a depressão pode levar ao suicídio, uma trágica fatalidade associada à perda de 850 mil vidas por ano no mundo.


As condições de trabalho do mundo moderno parece contribuir para o desenvolvimento dessa doença. O mundo globalizado que nos leva a ver em tempo real imagens do outro lado do mundo, também  produz uma nova configuração nas condições de trabalho marcada pela necessidade de agilidade e competitividade.

Nesse cenário, o trabalho acaba se tornando extremamente estressante, devido à pressão da concorrência, demanda excessiva de trabalho, prazos muito curtos, maiores responsabilidades e maior competitividade interna. Não somente as condições de trabalho no sociedade moderna, mas também o próprio estilo de vida moderno causam prejuízos à qualidade de vida das pessoas. Com certeza, não é todos os dias que estamos bem, felizes e cantantes. Há dias que estamos mais "para baixo", que estamos mais introspectivos.  Mas é muito importante observar atentamente e compreender a diferença entre a tristeza e do quadro depressivo.

A depressão é uma doença complexa e pode ocorrer de forma diferente para cada pessoa, dependo da personalidade da pessoa. É importante observar os sintomas e por quanto tempo esses sintomas duram. De forma geral, a depressão se caracteriza pelo humor deprimido na maior parte de tempo. Contudo, somente esse sintoma não caracteriza a doença. Caso outros sintomas como perda de interesse nas atividades do dia-a-dia, sentimentos de inutilidade, dificuldade de concentração, cansaço excessivo, alterações no sono ou peso ocorram em conjunto com o humor deprimido por mais de duas semanas, fique atento !!

A depressão é uma doença tratável!! Medicação antidepressiva e psicoterapia são eficazes para 60-80% das pessoas afetadas. Um estudo recente publicado em janeiro de 2011 no Journal of General Internal Medicine (site IG em português, site Reuters em inglês ou artigo JGIM em inglês) mostrou como os tratamentos psicoterápicos são eficazes no tratamento da depressão, em especial nos casos de difícil tratamento. O estudo aponta as vantagens da psicoterapia a longo prazo em comparação com o tratamento medicamentoso.

Nossa experiência clínica, nos faz acreditar que o tratamento psicoterápico é altamente eficaz no tratamento da depressão em conjunto com tratamento medicamentoso. Especialmente nos casos mais graves da doença, não é possível tratar o paciente em psicoterapia se ele não consegue ir ao consultório. O uso do medicamento irá proporcionar ao paciente forças para vencer os sintomas da doença e a psicoterapia  auxiliará na compreensão da doença e dos seus sintomas na vida do paciente, compreendendo também quais as variáveis que favoreceram o surgimento da doença. Nos casos de depressão crônica, como a Distimia, a psicoterapia pode auxiliar o paciente no manejo de seus sintomas, na medida em que paciente passa a se conhecer e conhecer seus sintomas, ele consegue  reconhecer com mais rapidez as "crises" e agir de forma a minimizar os sintomas e problemas.

A OMS estima que até 2030, a depressão será a doença mais comum do mundo (Reportagem Estadão). Estar atento para os sintomas da depressão e conhecer essa doença é muito importante. A depressão não é sinônimo de preguiça ou fraqueza, mas uma condição médica-psicológica que afeta homens e mulheres no mundo todo. Ninguém está livre de ser acometido por essa doença. E a procurar por ajuda especializada é caminho fundamental no tratamento da depressão.


Rosani Ap. Antunes Teixeira
psic_rosani@yahoo.com.br

Daniela Tsubota Roque
daniela.tsubota@gmail.com

Neurônios no Divã: Psicologia e Neurociências
Blog feito por psicólogas que acreditam em neurônios
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Música para os meus olhos!

É isso mesmo, Música para os meus olhos!!!

Você já sabe que ouvir música nos leva a uma experiência de felicidade e prazer. Basta olhar a sua volta e verá dezenas de pessoas com seus fones de ouvidos, se deliciando com os mais diversos estilos músicais.


Uma pesquisa da Universidade McGill, no Canadá mostrou que a dopamina (substância cerebral que está ligada a prazeres) é liberada durante o auge das respostas cardíaca, respiratória e da pele, refletindo a sensação emocional que o ato de ouvir música proporciona. Isso ajuda a explicar porque a música possui um alto valor em todas as sociedades humanas.


Mas... Música para meus olhos ???
Sim. Música para os meus olhos... Essa é a conclusão de outro estudo feito na mesma universidade, pelos pesquisadores Bradley W. Vines, e colaboradores.


Os cientistas recrutaram 30 voluntários e apresentaram a eles um solo de clarinete de Straviski (realizado de forma contida, normal e exagerada). Os resultados mostraram fortes evidências de que o componente visual, ou seja, assistir a apresentação de uma música contribui para uma comunicação emocional. Explicando melhor, se você assistir e ouvir a uma interpretação musical provavelmente você terá uma intensificação do prazer. Isso mesmo, assistir e ouvir a uma música proporciona ainda mais prazer do que só ouvi-la.

Então, diante desses resultados, todos nós merecemos muito mais músicas para nossos olhos!!!


Fonte:
   Bradley W. Vines, Carol L. Krumhansl, Marcelo M. Wanderley, Ioana M. Dalca , Daniel J. Levitin. Music to my eyes: Cross-modal interactions in the perception of emotions in musical performance. Cognition 118 (2011) 157–170.
  Valorie N Salimpoor, Mitchel Benovoy, Kevin Larcher, Alain Dagher & Robert J Zatorre. Anatomically distinct dopamine release during anticipation and experience of peak emotion to music. Nature Neuroscience 14 (2011) 257-262.

Rosani Ap. Antunes Teixeira
psic_rosani@yahoo.com.br
Neurônios no Divã: Psicologia e Neurociências

quinta-feira, 3 de março de 2011

Funções Executivas

Para falar sobre as funções executivas, nada melhor do que começar falando sobre o seu dia a dia. Você acorda, toma banho, café da manhã e sai para o trabalho. Se você prestar atenção verá que na maioria dos dias você estabelece objetivos, como por exemplo, terminar aquele relatório que já está há dias em sua mesa. Então você se planeja para sair um pouco mais cedo de casa. Toma seu banho e café da manhã bem rapidinho e sai para o trabalho, executando assim o que havia planejado.

No final do expediente você avalia os seus resultados, se terminou o relatório, volta para a casa, caso contrário você planeja novamente o que fazer e resolve ficar até um pouco mais tarde para terminá-lo.

Todas essas funções são atribuições das funções executivas:
  • Estabelecer objetivos;
  • Planejar ações;
  • Executar tarefas;
  • Avaliar resultados;
  • Realizar correções.

E ainda tem mais: São as funções executivas que nos permitem pensarmos abstratamente (com esse calor, meu apartamento está um forno!), também temos flexibilidade mental (vou separar minhas músicas por título... Não, pensando bem é melhor por autor), podemos manipular informações (se eu juntar a tinta amarela com tinta azul obtenho a cor verde), planejar e prever (vou sair mais cedo do trabalho e assistir um belo filme) fazer correção de erros (não deu certo dessa maneira, vou fazer diferente), tomar decisões (vou fazer caminhada!) e inibir respostas (estou com muita vontade de encontrar os amigos mas é melhor não ir ao barzinho hoje!).


Quer conhecer mais sobre essa função cognitiva?
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Inscreva-se Já!!!


Rosani Ap. Antunes Teixeira
psic_rosani@yahoo.com.br
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terça-feira, 1 de março de 2011

Esclerose Múltipla (Parte 2) – Turbilhão de Sentimentos

Ainda no tema Esclerose Múltipla (EM), vamos falar sobre os aspectos psicológicos dessa doença e da sucessão de emoções que tomam o paciente de EM e seus familiares.

Com os primeiros sintomas começa a busca pelo diagnóstico. A EM é uma doença que geralmente demora a ser diagnosticada pois seus sintomas são semelhantes aos de muitas outras doenças. E essa busca pode se tornar uma verdadeira odisséia, uma vez que o tempo entre as primeiras percepções dos sintomas até o diagnóstico definitivo pode ser muito longo, além de frustrante e bastante confuso. Na busca do diagnóstico correto, o paciente pode ouvir de tudo até “Isso não é nada, apenas estresse” ou ainda “Para mim, isso é frescura”...

Até que, no final desse processo, surge então o diagnóstico de EM. Uma doença incurável causada por um ataque do sistema imunológico contra o seu próprio organismo.  Diante desse diagnóstico o desespero é enorme. É muito difícil encarar e assimilar a informação.

Geralmente os portadores de doenças crônicas como a EM passam por algumas alterações emocionais após o diagnóstico. Num primeiro momento, a tendência é de não aceitar o diagnóstico e passar a viver a fase de negação. E muito comum ouvir as seguintes frases: "Não, não é, não pode ser!”; “Não, deve haver algum engano”.  Em seguida a pessoa torna-se hostil, passando a tratar a todos que a cercam com bastante hostilidade. Essa é uma fase também muito difícil para quem convive com o paciente EM. É preciso paciência para compreender os possíveis ataques de raiva que o paciente direciona às pessoas a sua volta.

Após algum tempo, que obviamente depende de pessoa para pessoa, inicia-se a próxima fase, a fase de barganha, e é nessa fase que a pessoa tenta negociar com os profissionais de saúde e também com seus familiares a forma como gostaria de ser tratado. É muito comum também o paciente desistir de lutar contra a doença, e entrar em uma fase depressiva, isolando-se e afastando-se de tudo e todos. Frases como: "Eu não consigo enfrentar isto.”; “Não posso passar por isto.”; “O que será de mim?” geralmente são sempre pronunciadas.

Por fim, entra-se na fase de aceitação da doença e nessa fase, a pessoa passa a aceitar melhor o diagnóstico, e contribui de maneira mais satisfatória ao tratamento e é apenas nessa fase que a pessoa passa a falar da doença sem se sentir doente e sem sentir raiva. Aos poucos vai-se percebendo exatamente o que isso significa. E vai se descobrindo que é possível conviver e encarar essa doença.

Além do desafio de encarar o diagnóstico da doença, é preciso lidar com os sintomas da esclerose múltipla. Apesar de existirem medicamentos que diminuem a frequência de surtos, a EM é imprevisível, e nunca se sabe quando acontecerá outro surto, sua intensidade e quais sintomas podem ocorrer, e essa incerteza é bastante desafiadora. Mais ainda, durante os períodos de exacerbação da doença, a pessoa pode ficar totalmente dependente de seus familiares e cuidadores, o que é extremamente difícil. Desde pequenos aprendemos a andar com as próprias pernas, nos virar sozinhos, cuidar de nós mesmo, tornarmos independentes e tudo na vida... E, de repente... Precisar de ajuda até para ir ao banheiro!!! Como lidar com isso? É possível suportar?

Minha experiência clínica mostra que as pessoas que optam em trabalhar esses sentimentos através da psicoterapia, acabam por se fortalecer e muitas vezes, percebem-se muito mais fortes do que pensavam ser, capazes de suportar as frustrações que a vida apresenta, mudam seu estilo de vida, melhoram sua qualidade e tornam-se pessoas mais felizes e realizadas...

Rosani Ap. Antunes Teixeira
psic_rosani@yahoo.com.br

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